Update: A matéria está disponível no web-site da Exame: http://portalexame.abril.com.br/revista/exame/edicoes/0896/tecnologia/m0132291.html
Ainda estou em estado de choque depois de ler a matéria “Fábricas de informação”, publicada na última edição da revista Exame (896, Ano 41 – No. 12), mas vou tentar expor aqui minhas opiniões de forma estruturada.
A matéria fala sobre o assunto preferido das revistas de negócios, das grandes consultorias e de algumas instituições governamentais do setor: o mercado de outsourcing de serviços de software. Este monstruoso mercado, de 50 bilhões de dólares, amplamente dominado pela Índia, enche os olhos de nossos governantes, como uma forma de engordar nossa balança comercial, e de nossas consultorias, como forma de aumentar suas receitas.
A matéria começa apresentando o dia-a-dia de um felizardo “operário” do novo milênio, que participa como uma pequena engrenagem de uma enorme linha de produção, que ao invés de produzir carros, ou geladeiras, produz aplicativos.
Segundo a revista a atividade destes operários não é lá muito glamorosa. Em sua grande maioria são programadores, com vinte e poucos anos, que passam os dias sentados em baias estreitas programando. Na maior parte das vezes ele sequer conhece o projeto como um todo, nas palavras do jornalista:
A produção é organizada como numa linha de montagem: ao cumprir uma etapa, o programador passa o serviço adiante e pega a próxima tarefa. É comum que estes profissionais nem saibam exatamente para que serve o software que estão criando, porque o desenvolvimento é quebrado em vários pedaços e distribuído entre equipes diferentes.
O autor segue nos apresentando uma fábrica no modelo clássico Taylor - fordista, completamente ultrapassado há décadas, que nem as grandes automobilísticas usam mais. Com a minha imaginação fértil já me imagino no lugar de Charles Chaplin, em seu clássico Tempos Modernos, “pirando” com o mouse e um teclado na mão (no original, Chaplin usava uma chave de boca, mais agora estamos muito mais evoluídos).
Existem alguns problemas com o tipo de organização destas fábricas de software.
O primeiro é um que já comentei aqui em Metáforas equivocadas: produzir software não é nada parecido com manufatura, absolutamente nada. Enquanto uma fábrica de geladeiras produz milhares de refrigeradores com a mesma especificação, nós produzimos milhares de aplicativos, cada um com sua própria necessidade, especificação e solução. Portanto nosso processo é muito mais parecido com o desenvolvimento da geladeira em sua fase de criação, do em sua fase de produção.
Além disso, mesmo os setores de manufatura e produção já aposentaram o modelo taylorista há anos. Qualquer engenheiro de produção recém formado conhece Deming, Teoria das restrições e Lean manufacturing. Duas edições atrás a própria Exame vinha exultando a Toyota e seu sistema de produção, nada parecido com o da fábrica de software descrita no artigo.
Portanto este modelo não só se baseia em uma metáfora equivocada, buscando práticas de um sistema de produção que não se assemelha a produção de software, como também errou o século, copiando práticas que eram super modernas, em 1960!
Mas este mercado é estratégico para o Brasil, as empresas estão investindo e o Brasil pode se tornar a melhor alternativa após a Índia. As 10 principais empresas do setor já empregam 40.000 operários, quer dizer, profissionais. Só existe um problema, não há mão-de-obra suficiente, com as qualificações necessárias, para atender a demanda. E ainda existe um agravante, a mão-de-obra brasileira é cara, com isto não conseguimos competir com o baixo custo dos Indianos.
Este problema é conseqüência de outro grande equívoco que também já comentei aqui, o Brasil está tentando copiar o modelo de sucesso indiano sem analisar as diferenças do contexto sócio-econômico entre os dois países. Com mão-de-obra especializada abundante, barata e fluente em inglês, a Índia estabeleceu um modelo de produção trabalho-intensivo. Desta forma ela conseguiu aproveitar seu maior diferencial competitivo: o custo da mão-de-obra.
O contexto sócio-econômico do Brasil é outro, não temos esta super oferta de mão-de-obra, portanto o modelo Indiano não é competitivo, quando a aplicado no Brasil. Mas isto não é problema, as empresas já estão pressionando o governo para baixar o custo de contratação de profissionais, pois este mercado é estratégico! Se o Brasil não atuar logo, outros países tomarão o espaço! É bem provável que o governo ceda a pressão, oficializando o modelo de contratação PJ, ou uma variante parecida, prostituindo de vez nosso mercado de trabalho.
Mas as empresas não estão paradas, esperando o governo fazer alguma coisa, estão buscando alternativas. Algumas já começaram a procurar potenciais empregados em cursinhos de idiomas, pois segundo Humberto Luiz Ribeiro, vice-presidente da Politec:
Aprender a programar é mais fácil do que aprender a falar outra língua fluentemente.
Eu sei, eu sei, respire fundo, conte até dez e guarde este revólver! Não faça nenhuma besteira, da qual se arrependerá mais tarde.
O Brasil não pode competir neste mercado com a variável custo, nem com a conversinha mole de que nós somos mais criativos que os outros, até porque não estamos demonstrando criatividade nenhuma com este benchmarking idiota. É necessário um modelo que quebre os paradigmas e leve as barreiras de produtividade, qualidade e custo para outro nível.
A questão não é fazer o mesmo aplicativo um pouco melhor, ou um pouco mais barato. É fazer um aplicativo muito melhor, com muito mais qualidade e muito mais barato! O valor agregado no serviço oferecido pela Índia e pelo Brasil é mínimo! Por isto mesmo a competição é feita na base de custo, o que não é a melhor forma de conquistar um mercado.
Não tenho dúvidas que daqui a alguns anos este modelo atual de outsourcing estará totalmente ultrapassado. E nós estaremos aqui com uma indústria ultrapassada, vendendo commodity e explorando mão-de-obra barata e desqualificada.
Desculpem-me o pessimismo, mas depois desta leitura não consigo fazer melhor que isto.